Da Redação
A morte a tiros de uma mulher de 37 anos
durante uma ação de agentes de imigração dos Estados Unidos, na cidade de
Minneapolis, no Estado de Minnesota, desencadeou protestos, reações políticas e
uma investigação federal. O caso ocorreu na manhã de quarta-feira (7/1) e está
sendo apurado pelo FBI, em meio a versões conflitantes apresentadas por
autoridades federais, estaduais e testemunhas.
A vítima foi identificada como Renee Nicole
Good, de 37 anos. Segundo autoridades federais, ela teria tentado atropelar
agentes do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE) com seu veículo.
Já o prefeito de Minneapolis e lideranças democratas contestam essa versão e
afirmam que um agente agiu de forma imprudente ao abrir fogo.
O
que mostram os vídeos
Imagens gravadas por testemunhas e divulgadas
nas redes sociais mostram agentes federais se aproximando de um carro bordô
estacionado em uma rua residencial. No entorno, uma multidão aparece reunida na
calçada, aparentemente em protesto contra a presença do ICE na região. Veículos
policiais também são vistos nas proximidades.
Nos vídeos, agentes ordenam que a motorista
saia do carro. Um deles tenta abrir a porta do veículo, enquanto outro se
posiciona à frente. Em seguida, o carro começa a se mover para deixar o local.
É nesse momento que um dos agentes dispara ao menos três vezes contra o
veículo. O carro perde o controle e colide com outro automóvel estacionado.
De acordo com análises feitas pela BBC, não é
possível determinar com clareza a distância entre o agente e o veículo nem se
ele chegou a ser atingido antes dos disparos.
Versões oficiais em conflito
O presidente Donald Trump afirmou, em
publicação na plataforma Truth Social, que um agente do ICE foi “brutalmente
atropelado” durante a ação. Segundo ele, o agente sobreviveu e estaria se
recuperando no hospital. Trump também responsabilizou a “esquerda radical” por,
segundo ele, promover ataques diários contra policiais e agentes federais.
A secretária de Segurança Interna, Kristi Noem,
declarou que Renee Good vinha “perseguindo e obstruindo” agentes ao longo do
dia e tentou transformar o carro em uma arma, caracterizando o episódio como um
ato de “terrorismo doméstico”. Segundo Noem, o agente atirou para se defender e
foi posteriormente atendido e liberado de um hospital local.
Já o chefe de polícia de Minneapolis, Brian
O’Hara, afirmou que a mulher estava bloqueando uma via quando foi abordada a pé
por um agente federal e, então, tentou fugir com o veículo. O prefeito da
cidade, no entanto, disse em coletiva que o agente agiu de maneira imprudente e
que a atuação do ICE não está tornando Minneapolis mais segura.
O Conselho Municipal de Minneapolis divulgou
nota afirmando que Renee Good estava apenas “cuidando de seus vizinhos” quando
foi morta.
Testemunhos e reação estadual
Uma testemunha, Emily Heller, disse à CNN que
viu agentes discutindo com manifestantes e ouviu gritos dirigidos à motorista.
Segundo ela, após o carro começar a se afastar, um agente se colocou à frente
do veículo e disparou à queima-roupa através do para-brisa, atingindo o rosto da
mulher.
O governador de Minnesota, Tim Walz, também
criticou duramente a versão apresentada pelo governo federal. “Não acreditem
nessa máquina de propaganda”, escreveu ele, prometendo uma investigação
“completa, justa e rápida” para garantir responsabilização e justiça.
Líderes democratas de destaque, como a
ex-vice-presidente Kamala Harris e o líder da minoria na Câmara, Hakeem
Jeffries, se manifestaram. Harris classificou a narrativa do governo Trump como
“manipulação psicológica”.
Protestos e clima de tensão
A morte de Renee Good provocou protestos e
marchas em várias partes de Minneapolis, com manifestantes exigindo a retirada
do ICE do Estado. Atos também começaram a ser organizados em outras cidades
americanas, como Nova Orleans, Miami, Seattle e Nova York.
O local do tiroteio fica a cerca de dois
quilômetros de onde George Floyd foi assassinado por um policial em 2020,
episódio que desencadeou protestos antirracistas em escala global — uma
coincidência que reacendeu memórias traumáticas e ampliou a indignação popular.
Diante do aumento da tensão, as escolas
públicas de Minneapolis anunciaram o cancelamento das aulas pelo restante da
semana, citando preocupações com a segurança após relatos de prisões feitas por
agentes federais em frente a uma escola.
Por que o ICE está em Minneapolis?
O governo Trump enviou cerca de 2 mil agentes
federais adicionais para a região de Minneapolis nas últimas semanas, alegando
a necessidade de combater fraudes no sistema de assistência social do Estado. O
envio representa uma das maiores concentrações de pessoal do Departamento de
Segurança Interna em uma única cidade nos últimos anos.
A operação faz parte de uma campanha nacional
de fiscalização migratória lançada no fim do ano passado, com foco em pessoas
com ordens de deportação, incluindo membros da numerosa comunidade somali da
cidade — grupo frequentemente alvo de críticas do presidente.
Trump já se referiu a essa comunidade de forma
ofensiva e, após acusações de fraude envolvendo creches administradas por
imigrantes somalis, reteve recursos federais destinados à assistência infantil
em Minnesota.
Enquanto o FBI conduz a investigação sobre a morte de Renee Good, o episódio aprofunda a polarização política nos Estados Unidos e reacende o debate sobre o uso da força por agentes federais, políticas migratórias e o impacto dessas ações nas comunidades locais.
Esse artigo foi baseado em matéria publicada no site BBC News Brasil: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cn8jrg02k71o



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