O império empresarial bilionário da elite secreta de Cuba

Especialistas indicam o ex-presidente cubano Raúl Castro e seu entorno como proprietários e operadores da holding multimilionária Gaesa

Enquanto a população cubana enfrenta escassez de alimentos, apagões frequentes e uma economia em colapso, um conglomerado empresarial ligado ao aparato militar concentra bilhões de dólares longe de qualquer transparência pública. Trata-se da Gaesa (Grupo de Administración Empresarial S.A.), uma estrutura tão poderosa quanto obscura.

Sem site oficial, sem relatórios públicos e fora do orçamento estatal, a Gaesa opera praticamente invisível — apesar de controlar os setores mais lucrativos da economia cubana.

Um gigante fora de controle institucional

A singularidade da Gaesa começa pelo fato de que suas contas não podem ser auditadas nem pela Assembleia Nacional nem pela Controladoria Geral da República. Ainda assim, o conglomerado administra praticamente todas as fontes de entrada de moeda forte no país, incluindo turismo, remessas internacionais, comércio exterior e missões médicas.

Embora pertença formalmente às Forças Armadas Revolucionárias, especialistas indicam que nem mesmo o aparato militar exerce controle direto sobre suas operações.

Documentos vazados em 2024 apontam que a holding possuía ativos de pelo menos US$ 17,9 bilhões, com mais de US$ 14 bilhões em liquidez. Trata-se de um montante superior às reservas internacionais de diversos países latino-americanos.

Um país em crise, uma elite em ascensão

O contraste é evidente. Cuba acumula uma queda de cerca de 15% do PIB nos últimos anos, enfrenta dificuldades para honrar dívidas externas e vive uma crise social profunda.

Estima-se que quase 90% da população esteja em condições de pobreza ou sobrevivência. A escassez de alimentos, medicamentos e combustíveis, somada aos constantes apagões, agravou ainda mais o cotidiano da população.

Enquanto isso, hotéis modernos e investimentos turísticos seguem sendo erguidos, criando um cenário de forte desigualdade, especialmente visível em Havana.

O hotel Grand Aston Havana, inaugurado em 2022, com cerca de 600 apartamentos, no bairro do Vedado, no centro da capital. Ele pertence ao grupo Gaviota, que faz parte da Gaesa

Origem e expansão de um império

A Gaesa surgiu nos anos 1990, durante o chamado “Período Especial”, após o colapso da União Soviética. Inicialmente, sua função era gerar divisas para as Forças Armadas em meio à crise.

Com a ascensão de Raúl Castro ao poder, a partir de 2006, o conglomerado passou por uma expansão acelerada. Empresas estratégicas foram incorporadas, incluindo a poderosa Cimex, ampliando significativamente seu alcance.

Ao longo dos anos, a Gaesa consolidou controle sobre setores fundamentais:

turismo e hotelaria

comércio varejista e atacadista

sistema financeiro internacional

telecomunicações

logística e infraestrutura

Na prática, tornou-se o principal canal de captação de dólares da economia cubana.

Uma economia paralela

Embora Cuba opere oficialmente sob um modelo socialista, a Gaesa funciona como um sistema paralelo. Ela mantém orçamento próprio, não divulga balanços e atua fora do escrutínio público.

Especialistas definem o conglomerado como “uma economia dentro de outra”, devido à sua autonomia e opacidade.

O nível de sigilo é tão elevado que tentativas de fiscalização parecem ter gerado consequências políticas. Autoridades que sinalizaram interesse em investigar a holding foram posteriormente afastadas de seus cargos, embora não haja confirmação oficial de relação direta.

Quem controla a Gaesa?

A estrutura de comando da Gaesa é uma das mais enigmáticas do mundo corporativo. Não existe organograma público, e suas empresas são organizadas em redes complexas, muitas vezes com participação indireta e difícil rastreamento.

Analistas indicam que o poder está concentrado em um grupo extremamente restrito — possivelmente menos de 15 pessoas — ligado ao entorno familiar e político de Raúl Castro.

Entre os nomes conhecidos, destaca-se Luis Alberto Rodríguez López-Calleja, considerado o principal arquiteto da expansão do grupo até sua morte, em 2022.

A generala-de-brigada Ania Guillermina Lastres é a atual presidente da Gaesa, mas os especialistas colocam em dúvida seu real poder sobre a holding

Após sua morte, a presidência executiva passou para Ania Guillermina Lastres, embora especialistas considerem que seu papel seja mais administrativo do que decisório.

Lucros extraordinários e vantagens estruturais

Os dados vazados revelam um nível de rentabilidade incomum. Em 2024, a Gaesa teria registrado margem de lucro próxima a 38%, muito acima dos padrões internacionais.

Esse desempenho se explica por fatores como:

monopólio em setores lucrativos

ausência de concorrência

receitas em dólar e custos em moeda local desvalorizada

acesso privilegiado a recursos estatais

Além disso, o conglomerado se beneficia da dualidade cambial, pagando salários em pesos cubanos enquanto arrecada em moeda forte.

Onde está o dinheiro?

O destino dos bilhões controlados pela Gaesa permanece incerto. Especialistas acreditam que os recursos estejam distribuídos entre:

bancos cubanos controlados pelo próprio grupo

instituições financeiras internacionais

estruturas em paraísos fiscais

Parte desses valores funciona como uma espécie de reserva internacional paralela, fora do controle do Banco Central.

O impacto na crise cubana

O peso da Gaesa na economia é gigantesco. Estimativas indicam que suas operações representem cerca de 40% do PIB do país.

Críticos apontam que a estratégia de investimentos prioriza setores voltados à captação de divisas, como o turismo, em detrimento de áreas essenciais como agricultura, energia e indústria.

O resultado é um modelo econômico desequilibrado, que contribui para a escassez interna e limita a capacidade de recuperação do país.

Um futuro incerto

Com o agravamento da crise e o aumento das pressões internacionais, cresce a incerteza sobre o futuro de Cuba — e da própria Gaesa.

Em caso de mudanças políticas, especialistas acreditam que uma das primeiras medidas será tentar localizar e utilizar os recursos acumulados pelo conglomerado para estabilizar a economia.

Por enquanto, porém, o grupo segue operando nas sombras, simbolizando um dos maiores paradoxos do país: um império bilionário coexistindo com uma população em crescente dificuldade.

A miséria nas ruas de Havana contrasta com os modernos hotéis financiados pelas corporações da Gaesa, como a Torre K — Iberostar Selection Havana (esq.), inaugurada em 2025


Fonte: Adaptado de reportagem de Atahualpa Amerise, BBC News Mundo.

 

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