Eles deixaram
a Guatemala em busca de uma vida melhor.
Como milhões
de imigrantes, atravessaram fronteiras carregando a esperança de encontrar nos
Estados Unidos trabalho, segurança e um futuro para os filhos.
Mas o sonho
americano de Nixon Pérez Paz e Glendy González de la Cruz terminou de uma forma
trágica.
Os corpos do
casal foram encontrados em um canavial no sul da Guatemala.
Eles estavam
com as mãos amarradas e amordaçados.
E, ao lado dos
corpos, havia uma criança de apenas 14 meses, ainda viva, mas gravemente
desidratada.
Esta é a
história de uma família marcada pela imigração, pela deportação, pelo medo e,
finalmente, por um crime que ainda não foi esclarecido.
Em 2019, Nixon
Pérez Paz e Glendy González de la Cruz deixaram a Guatemala.
O objetivo era
escapar da pobreza e da violência e construir uma nova vida nos Estados Unidos.
Nixon foi o
primeiro a migrar.
Ele atravessou
irregularmente a fronteira com o México.
Meses depois,
Glendy também chegou aos Estados Unidos, levando consigo a filha que o casal
tinha na época.
Depois de uma
breve passagem pelo Texas, a família encontrou estabilidade em Overland, uma
pequena cidade do Missouri, no Meio-Oeste americano.
Foi ali que a
família começou a crescer.
O casal teve
outras duas filhas.
Nixon
trabalhava como telhadista.
Glendy passou
por diferentes empregos em empresas de embalagem de frutas, engarrafadoras e
fábricas.
A vida estava
longe de ser fácil, mas havia trabalho, casa e esperança.
Em março de
2021, o irmão de Nixon, Rolando Pérez Paz, também se juntou à família.
Por alguns
anos, os irmãos trabalharam e viveram nos Estados Unidos.
Até que, em
abril de 2025, tudo mudou.
Na manhã de 15
de abril de 2025, Nixon e Rolando estavam começando mais um dia de trabalho.
De acordo com
Rolando, vários agentes do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos
Estados Unidos, o ICE, chegaram em veículos sem identificação.
Os irmãos
foram cercados.
Obrigados a
sair da caminhonete onde trabalhavam, foram algemados e tiveram os tornozelos
presos com correntes.
Depois, foram
levados para um centro de detenção e, posteriormente, para a cadeia do condado
de Phelps.
A acusação
relacionada à situação migratória era clara: os dois haviam entrado
irregularmente nos Estados Unidos.
Mas, no caso
de Nixon, havia também antecedentes criminais.
Segundo o ICE,
ele havia sido condenado duas vezes por dirigir sob efeito de álcool, em 2020 e
em 2024.
A agência
afirmou ainda que Nixon recebeu o devido processo legal, teve uma ordem final
de deportação emitida em 21 de abril de 2025 e foi deportado para a Guatemala
em maio daquele ano.
Um mês depois,
Rolando também foi deportado.
A família
estava sendo separada.
E Glendy
permaneceu sozinha nos Estados Unidos.
Grávida,
Glendy continuou em Overland.
Um mês depois
da deportação do marido, nasceu a terceira filha do casal.
Agora, Glendy
precisava sustentar sozinha três crianças.
Segundo o
Missouri Workers Center, organização que atua na defesa dos direitos dos
trabalhadores e imigrantes, ela chegou a ter dois empregos.
Mesmo assim,
encontrou tempo para participar de reuniões do grupo Fuerza, dedicado à
organização de imigrantes.
A organização
descreveu Glendy como uma mulher que continuava ajudando outras pessoas mesmo
enquanto enfrentava dificuldades pessoais.
Mas havia uma
preocupação ainda maior.
O medo de
perder a guarda das filhas.
Segundo o
Missouri Workers Center, Glendy decidiu voltar para a Guatemala em junho de
2026 para proteger as meninas e tentar manter a família unida.
Ela tinha, de
acordo com a organização, uma audiência relacionada ao seu pedido de asilo
marcada para 2027.
A BBC News
Mundo informou que não conseguiu confirmar essa informação de forma
independente.
Mesmo assim,
Glendy tomou a decisão de retornar.
Depois de anos
nos Estados Unidos, ela voltou para o país onde havia começado sua história.
E foi lá que a
tragédia aconteceu.
A família se
estabeleceu no município de San Andrés Villa Seca, no departamento de
Retalhuleu, uma região rural localizada a cerca de 175 quilômetros da Cidade da
Guatemala.
Nixon e Glendy
tentavam reconstruir a vida.
Mas, em 20 de
julho, saíram de casa para resolver alguns assuntos.
Foi a última
vez que foram vistos vivos.
As horas
passaram.
O casal não
voltou.
A família
comunicou o desaparecimento às autoridades.
Moradores da
região também começaram a ajudar nas buscas.
Até que, no
dia seguinte, um choro de bebê chamou a atenção das pessoas.
O som vinha de
um canavial.
No local, os
moradores encontraram uma cena devastadora.
Nixon Pérez
Paz e Glendy González estavam mortos.
Os dois
apresentavam possíveis ferimentos provocados por tiros.
Segundo a
Polícia Nacional Civil da Guatemala, as vítimas estavam com as mãos amarradas
para trás e amordaçadas.
Havia também
sinais de possíveis disparos na região do pescoço e da cabeça.
Ao lado dos
corpos estava a filha mais nova do casal.
Giovanni tinha
apenas 14 meses.
A criança
estava viva, mas gravemente desidratada.
Foi encontrada
graças ao próprio choro.
A polícia
recolheu no local cápsulas de munição, uma toalha e um tênis infantil branco e
rosa.
Uma
motocicleta vermelha também foi apreendida.
Os
investigadores passaram a trabalhar com o Ministério Público para tentar
descobrir quem matou o casal.
Mas, até o
momento, a identidade dos responsáveis e a motivação do crime permanecem
desconhecidas.
A morte de
Nixon e Glendy aconteceu em um país que enfrenta há anos problemas relacionados
à violência e à atuação de organizações criminosas.
Segundo dados
citados pela reportagem da BBC News Mundo, a taxa de homicídios na Guatemala
passou de 16,1 mortes por 100 mil habitantes em 2024 para 17,65 em 2025.
Entre os
fatores apontados estão disputas entre gangues e o narcotráfico.
Organizações
como Barrio 18 e Mara Salvatrucha, conhecida como MS-13, mantêm influência em
diferentes regiões do país.
Mas é
importante destacar:
Até o momento,
não há confirmação pública de que essas organizações tenham qualquer relação
com o assassinato de Nixon e Glendy.
A investigação
ainda está em andamento.
A história do
casal também reacendeu o debate sobre as consequências das políticas de
deportação dos Estados Unidos.
Desde o início
do governo Donald Trump, em janeiro de 2025, a política migratória americana
passou por uma intensificação das operações de fiscalização e deportação.
Segundo dados
do Instituto Guatemalteco de Migração citados pela reportagem, a Guatemala
recebeu 38.720 deportados no período considerado em 2026.
Mais de 90%
dessas pessoas vieram dos Estados Unidos.
Para os
críticos das deportações, casos como o de Nixon e Glendy mostram que as
consequências podem ultrapassar a pessoa deportada e atingir toda uma família.
Mas o caso
também precisa ser analisado com cautela.
A deportação
de Nixon ocorreu dentro de um processo migratório que, segundo o ICE, incluía
condenações por dirigir sob efeito de álcool.
O assassinato
ocorrido posteriormente na Guatemala, entretanto, é um crime separado e, até
agora, não existe evidência pública que estabeleça que a deportação tenha
causado diretamente a morte do casal.
Para Rolando
Pérez Paz, irmão de Nixon, a dor é difícil de descrever.
Ele perdeu o
irmão.
As três
meninas perderam os pais.
E uma família
inteira tenta agora reconstruir a vida depois de uma tragédia.
Rolando
afirmou que os dois queriam apenas trabalhar e lutar por uma vida melhor.
Mas existe uma
pergunta que não sai de sua cabeça:
Se Nixon não
tivesse sido deportado, Glendy teria retornado à Guatemala?
E, se ela não
tivesse retornado, o casal ainda estaria vivo?
Essa pergunta,
porém, permanece sem resposta.
Não há, até
agora, evidência suficiente para afirmar que a deportação tenha relação causal
com o assassinato.
O que existe é
uma sequência trágica de acontecimentos.
Uma família
que deixou a Guatemala.
Um homem que
foi deportado.
Uma mulher que
decidiu retornar.
E, pouco tempo
depois, dois corpos encontrados em um canavial.
As três filhas
de Nixon e Glendy agora estão sob os cuidados de familiares na Guatemala.
São três
crianças que perderam os pais.
A mais nova,
encontrada ainda bebê ao lado dos corpos, sobreviveu.
Mas carregará
para sempre as consequências de uma tragédia que começou muito antes daquele
canavial.
Uma campanha
de arrecadação de fundos foi criada para ajudar no sustento e na educação das
meninas.
Em Overland,
no Missouri, moradores também organizaram uma vigília em homenagem ao casal.
Pessoas que
conheceram a família se reuniram para lembrar duas vidas interrompidas.
A história de
Nixon Pérez Paz e Glendy González de la Cruz ainda não terminou.
A investigação
sobre o assassinato continua.
Quem ordenou?
Quem executou?
E por quê?
São perguntas
que permanecem sem resposta.
Mas existe uma
certeza.
Três meninas
crescerão sem o pai e sem a mãe.
Nixon e Glendy
partiram da Guatemala em busca de uma vida melhor.
Anos depois,
retornaram ao país.
E encontraram
a morte.
O caso expõe
as enormes dificuldades enfrentadas por famílias migrantes — entre a esperança
de uma vida melhor, o medo da deportação, a violência e a luta para
permanecerem juntas.
Como disse
Rolando Pérez Paz:
"Meu irmão e minha cunhada eram pessoas que queriam trabalhar, que
queriam lutar."
Agora, cabe às
autoridades guatemaltecas descobrir quem tirou essas duas vidas.
E às famílias,
amigos e comunidades, tentar reconstruir o que restou.
Esta foi a
história de Nixon Pérez Paz e Glendy González de la Cruz.
Uma história
de migração, separação, violência e uma família que jamais será a mesma.
VEJA TAMBÉM:
0 Comentários